Estoura, osso miserável de cão. A gente sabe muito bem que teu pensamento não está concluído, terminado, e que em qualquer sentido que te voltares ainda não começaste a pensar.
Pouco importa. - O medo que se abate sobre ti te esquarteja à medida mesmo do impossível, pois bem sabes que deves passar deste outro lado para o qual nada em ti está pronto, nem mesmo este corpo, e sobretudo este corpo, que deixarás sem esquecer nem a matéria, nem a espessura, nem a impossível asfixia.
E será de fato como num mau sonho onde tu estás fora da situação de teu corpo, tendo-o arrastado até lá apesar detudo e ele te fazendo sofrer e te iluminando com suas ensurdecedoras impressões, onde a extensão é sempre menor ou maior que tu, onde nada no sentimento que trazes de uma antiga orientação terrestre pode mais ser satisfeito.
E é bem isso, e é para sempre isso. O sentimento desta desolação e deste mal-estar inominável, qual grito, digno do ladrar de um cão num sonho, te arrepia a pele, te revira a garganta, no extravio de um afogamento insensato. Não, isto não é verdade. Não é verdade.
Mas o pior é que é verdade. E ao mesmo tempo que este sentimento de veracidade desesperadora onde te parece que vais morrer de novo, que vais morrer pela segunda vez (To o dizes a ti mesmo, tu o pronuncias, que tu vais morrer. Tu vais morrer: Eu vou morrer pela segunda vez.), eis que não se sabe qual umidade de uma água de ferro ou de pedra ou de vento te refrescou incrivelmente e te alivia o pensamento, e tu mesmo corres, tu te fazes ao correr para a tua morte, para o teu novo estado de morte. Esta água que corre é a morte, e a partir do momento em que tu te contemplas com paz, que registras tuas novas sensações, é que a grande identificação começa. Tu estavas morto e eis que de novo tu te encontras vivo - SÓ QUE DESTA VEZ TU ESTÁS SÓ.
Trecho do texto de Antonin Artaud "QUEM, NO SEIO...". Tirado do livro: Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva, 2004. p.214.
1 comentários:
Este texto é perturbador! Bela escolha!
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